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Saúde emocional no início da carreira exige atenção

Diante do recorde de afastamentos por transtornos mentais, especialista destaca cinco atitudes para jovens profissionais e reforça o papel das empresas na criação de ambientes de trabalho seguros

Diante do recorde de afastamentos por transtornos mentais, especialista apresenta cinco atitudes para jovens profissionais e reforça a responsabilidade das empresas na criação de ambientes seguros para o aprendizado.

O início da carreira costuma reunir expectativas de crescimento, insegurança, necessidade de adaptação e pressão por resultados. Para muitos jovens, a entrada no mercado de trabalho também coincide com mudanças financeiras, familiares e pessoais, tornando essa etapa especialmente sensível para a saúde emocional.

O debate ganha relevância diante do aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais — crescimento de 15,66% em comparação com 2024.

Os transtornos ansiosos e os episódios depressivos apareceram entre as principais causas dessas concessões. Os números podem ser consultados nos painéis estatísticos da Previdência Social e também foram destacados pelo Conselho Federal de Enfermagem.

O dado dimensiona o adoecimento entre trabalhadores segurados, mas não significa que todos os casos tenham sido provocados exclusivamente pelo trabalho. As causas dos transtornos mentais podem envolver diferentes fatores pessoais, sociais e profissionais.

A discussão também se relaciona à atualização da Norma Regulamentadora nº 1. De acordo com o manual publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a nova redação passou a incluir expressamente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

Primeiros anos reúnem diferentes pressões

Para Erica Rodrigues, professora da DomEduc e especialista em saúde mental no ambiente corporativo, a entrada no mercado de trabalho vai além do aprendizado técnico de uma profissão.

“Além de aprender uma profissão, muitas pessoas estão vivendo a entrada na vida adulta, assumindo responsabilidades financeiras, redefinindo a relação com a família e tentando descobrir quem são fora do ambiente acadêmico”, explica.

Segundo a especialista, avaliações, erros e feedbacks podem adquirir um peso emocional maior nessa fase, porque a identidade profissional ainda está sendo construída. Ao mesmo tempo, empresas precisam adaptar seus programas de desenvolvimento a um mercado em transformação.

Como mostrou o Mundo RH na reportagem “IA muda o início da carreira e pressiona RH a redesenhar estágio, trainee e primeiro emprego”, a automação de tarefas operacionais também modifica a maneira como os jovens aprendem, ganham experiência e demonstram potencial.

Confira cinco atitudes apontadas pela especialista para fortalecer a saúde emocional nos primeiros anos da vida profissional.

1. Reconhecer que ninguém chega pronto

O primeiro emprego deve ser entendido como um período de formação. É esperado que o jovem ainda não domine todas as competências exigidas pela função e precise de orientação para compreender processos, prioridades e formas de relacionamento.

A expectativa de alcançar excelência imediatamente pode aumentar a ansiedade e dificultar o aprendizado. Para Erica, desenvolver-se envolve cometer erros, fazer perguntas, solicitar ajuda e adquirir experiência de maneira gradual.

Isso não elimina a responsabilidade do profissional sobre suas entregas, mas ajuda a diferenciar dificuldades próprias da aprendizagem de problemas relacionados à falta de esforço ou comprometimento.

2. Diferenciar ambição de cobrança excessiva

O desejo de crescer pode estimular curiosidade, dedicação e busca por novas habilidades. A cobrança excessiva, por outro lado, costuma estar associada ao medo constante de errar, decepcionar ou não corresponder às expectativas.

Um dos sinais de alerta está no custo desse crescimento. Quando a busca por desempenho exige abrir mão continuamente do sono, do descanso, da alimentação adequada, das relações pessoais e da qualidade de vida, pode ser necessário rever o ritmo e as prioridades.

A análise também deve considerar as condições oferecidas pela empresa. Metas incompatíveis, jornadas prolongadas, falta de clareza e liderança despreparada não devem ser tratadas apenas como dificuldades individuais de adaptação.

3. Não transformar o trabalho na única identidade

A carreira ocupa uma parte importante da vida, mas não deve funcionar como a única fonte de reconhecimento e realização. Quando toda a identidade está concentrada no desempenho profissional, erros, críticas e mudanças podem ser percebidos como fracassos pessoais.

Manter vínculos fora do trabalho, cultivar interesses pessoais e preservar momentos de descanso contribui para uma relação mais equilibrada com a profissão.

Isso não significa falta de comprometimento. A construção de limites pode favorecer a recuperação física e emocional necessária para manter atenção, criatividade e capacidade de decisão.

4. Encarar erros e feedbacks como aprendizado

Erros e críticas fazem parte do desenvolvimento profissional, mas a maneira como são apresentados influencia seus efeitos. Feedbacks específicos, respeitosos e acompanhados de orientação podem ajudar o jovem a identificar pontos de melhoria.

Para Erica, duas perguntas podem contribuir para reorganizar a percepção diante de uma situação difícil: “O que essa experiência pode me ensinar?” e “Estou avaliando um comportamento específico ou toda a minha capacidade?”.

O profissional também precisa aprender a diferenciar uma orientação legítima de práticas como exposição, humilhação, ameaça ou cobrança abusiva. Ambientes seguros permitem discordâncias e correções sem desrespeitar a dignidade das pessoas.

5. Observar quando o estresse deixa de ser passageiro

Algum nível de ansiedade pode surgir diante de experiências novas. O problema aparece quando o sofrimento se torna persistente e começa a afetar diferentes áreas da vida.

Dificuldade para se desligar do trabalho, alterações prolongadas no sono, irritabilidade, sensação constante de insuficiência, redução da concentração e sintomas físicos frequentes merecem atenção.

Esses sinais não devem ser usados para autodiagnóstico. Quando persistem ou interferem na rotina, a orientação é procurar avaliação de um profissional qualificado em saúde mental.

Empresas também são responsáveis

Embora hábitos individuais possam contribuir para o equilíbrio emocional, a prevenção não pode ser transferida integralmente ao trabalhador. Lideranças e organizações exercem influência direta sobre carga de trabalho, segurança psicológica, clareza das expectativas e qualidade das relações.

Erica observa que algumas empresas contratam jovens esperando que eles apresentem competências que dependem de experiência. Comunicação, gestão de conflitos, tomada de decisão e maturidade emocional também são desenvolvidas ao longo da trajetória profissional.

“Dar clareza sobre as expectativas, oferecer feedbacks construtivos, criar espaço para perguntas e compreender que o erro faz parte da aprendizagem contribui para um ambiente mais seguro e favorece o desenvolvimento”, afirma.

A reportagem do Mundo RH “Como atrair e reter talentos em início de carreira” também destaca a importância de ambientes inclusivos, oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento pessoal para a permanência dos jovens.

Programas de integração, acompanhamento próximo, treinamento das lideranças, canais de escuta e critérios transparentes de avaliação podem reduzir inseguranças e facilitar a adaptação. Ao mesmo tempo, as empresas precisam identificar fatores organizacionais capazes de produzir sobrecarga, conflitos ou sofrimento.

Fortalecer a saúde emocional no início da carreira, portanto, exige uma responsabilidade compartilhada. Jovens profissionais podem desenvolver autoconhecimento, limites e repertório para enfrentar desafios. Às empresas cabe criar condições para que o aprendizado aconteça sem transformar pressão excessiva e adoecimento em etapas consideradas normais da formação profissional.