Sua empresa apenas conversa com a IA ou consegue extrair o melhor dela?
A pergunta que empresas e profissionais deveriam fazer não é qual IA utilizar, mas onde existe uma tarefa, um processo ou uma decisão que poderia ser realizada de maneira mais inteligente, rápida e eficiente com seu apoio
Atualmente, tenho visto uma discussão dominar o mercado de tecnologia: qual é a melhor inteligência artificial, ChatGPT, Gemini, Claude ou qualquer uma das novas plataformas que surgem quase diariamente?
Embora seja uma pergunta relevante, acredito que desvia a atenção do que realmente importa. O foco não deveria estar na ferramenta em si, mas na capacidade de gerar resultados, aumentar a eficiência e solucionar desafios de negócio.
Os estudos mostram que se trata de um caminho sem volta. Segundo o relatório AI Index 2025, da Universidade de Stanford, 78% das organizações em todo o mundo utilizam IA em alguma área de suas operações. O dado confirma que a tecnologia deixou de ser uma tendência para se tornar uma ferramenta de trabalho.
Mas, se já avançamos na adoção, precisamos agora discutir a qualidade desse uso. Muitas empresas ainda utilizam a IA apenas como mecanismo de consulta: fazem perguntas, buscam informações e encerram a interação. Não há nada de errado nisso, mas limitar a tecnologia a essa função significa explorar apenas uma parte de seu potencial.
No varejo, por exemplo, um empresário pode utilizar IA para analisar os resultados mensais e fazer perguntas em linguagem natural sobre seus próprios dados: qual categoria mais cresceu? Qual foi mais rentável? Onde estão as principais oportunidades? Em vez de olhar apenas para números isolados, passa a aprofundar a análise e ampliar a inteligência disponível para tomar decisões.
Também já vemos aplicações voltadas a problemas específicos da operação. No varejo farmacêutico, já existem soluções para apoiar estratégias de preços em marketplaces. A tecnologia também pode ajudar a criar ferramentas para gerenciar transferências de mercadorias entre lojas ou dashboards para acompanhar indicadores específicos.
Na Farmarcas, temos um exemplo concreto de como a inteligência artificial pode gerar ganhos operacionais. Implementamos um chat conversacional baseado em IA, integrado ao Chatwoot, para atender balconistas e associados que utilizam o Portal e o aplicativo da rede. A ferramenta reúne uma base de conhecimento que permite esclarecer dúvidas sobre configurações e uso das plataformas diretamente pelo chat, eliminando a abertura de chamados.
Os resultados comprovam a eficiência da iniciativa. Atendimentos de primeiro nível (N1), que antes levavam, em média, duas horas para serem respondidos pela equipe de suporte, passaram a ser solucionados em até cinco minutos. Além disso, o volume de chamados caiu de 16 para sete em apenas uma semana após a implantação.
A solução também ampliou a autonomia dos Anjos - profissionais que acompanham os associados ao longo de sua jornada na Farmarcas -, permitindo que orientem os usuários sem encaminhar as demandas à equipe de Inovação. Na prática, o projeto demonstra que a inteligência artificial pode assumir atividades operacionais, aumentando a eficiência das equipes e liberando tempo para tarefas de maior valor estratégico.
É nesse contexto que os agentes de IA representam um passo adiante. A diferença é simples: ep uma IA de consulta espera uma pergunta para oferecer uma resposta, um agente pode receber uma tarefa e executá-la.
Uma empresa pode determinar, por exemplo, que a ferramenta acesse dados diariamente, analise os resultados do dia anterior e gere um relatório com os principais problemas ou oportunidades. Também pode configurar alertas sempre que determinado indicador ficar abaixo do esperado.
Para uma pequena empresa, portanto, automatizar não significa necessariamente implantar projetos complexos. Análise de dados, consolidação de informações, geração de relatórios e monitoramento de indicadores são atividades que já podem ser incorporadas gradualmente à rotina a partir das IAs que já existem no mercado, sem a necessidade de desenvolver novas.
Há, porém, uma condição fundamental: automatizar uma tarefa não significa deixar de ser responsável por ela. Se antes um profissional gastava horas extraindo dados, cruzando planilhas e preparando apresentações, agora pode dedicar mais tempo a compreender os resultados e transformá- los em decisões.
Por isso, a revisão humana continua sendo indispensável. Uma análise bem apresentada pela IA não é necessariamente uma análise correta, é preciso ter cuidado com informações estratégicas e dados sensíveis, avaliando as condições de segurança e privacidade das ferramentas utilizadas antes de compartilhar informações corporativas. A recomendação para aumentar a segurança nesse caso, é o uso de ferramentas pagas, já que as versões gratuitas não oferecem segurança de compartilhamento de dados.
Dicas práticas aos empresários
Para quem deseja avançar além do uso básico, eu começaria por dois pontos: dados e processos. Primeiro, é preciso verificar se a empresa possui informações suficientes e estruturadas. Depois, identificar quais processos realmente fazem sentido automatizar e compreender como funcionam.
A inteligência artificial não corrige, por si só, um processo mal estruturado. Se você automatiza um processo ruim, pode apenas passar a executá-lo de forma inadequada com muito mais velocidade.
É preciso pensar em um agente de IA como um verdadeiro assistente. Para que alguém execute bem uma tarefa, precisamos fornecer informações, explicar claramente o que esperamos e acompanhar o resultado dia após dia. Com a inteligência artificial, a lógica é semelhante.
O mercado ainda está aprendendo a transformar todo esse potencial em resultados concretos. Grandes, médias e pequenas empresas estão experimentando possibilidades e descobrindo onde a tecnologia realmente gera valor. Por isso, considero que o maior equívoco atualmente não seja escolher a plataforma errada, mas deixar de utilizá-la ou limitar seu uso às aplicações mais básicas.
Não acredito que a inteligência artificial substituirá profissionais de forma generalizada. O que acredito é que profissionais e empresas que aprenderem a trabalhar com essas ferramentas terão uma vantagem competitiva relevante em relação àqueles que optarem por ignorá-las.
No fim das contas, a pergunta que empresas e profissionais deveriam fazer não é apenas qual inteligência artificial utilizar, mas onde existe uma tarefa, um processo
ou uma decisão que poderia ser realizada de maneira mais inteligente, rápida e eficiente com seu apoio. É nessa resposta que está o verdadeiro valor da inteligência artificial.