Depois das eleições, o que as empresas devem revisar no planejamento de 2027?

Especialistas em contabilidade podem ajudar empresários a tomar decisões com mais segurança, mesmo diante das incertezas

Com o fim das eleições, as empresas começam a olhar para 2027 com uma pergunta em mente: é hora de investir, reduzir despesas ou esperar para entender os próximos passos da economia?

A resposta não depende apenas do resultado das urnas. Juros, inflação, disponibilidade de crédito, consumo e decisões sobre as contas públicas também influenciam os custos e as oportunidades dos negócios. Por isso, empresários precisam revisar o planejamento financeiro e preparar a empresa para diferentes cenários, sem deixar decisões importantes em suspenso por causa das incertezas políticas.

As projeções econômicas reforçam a necessidade de cautela. No Boletim Focus divulgado em 26 de outubro, a mediana das expectativas do mercado apontava crescimento de 1,31% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2027, inflação de 4,34% e taxa Selic de 11,75% ao fim do ano. As estimativas podem mudar conforme novos dados e decisões econômicas.

Já a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda projetou crescimento de 2,3% para a economia brasileira em 2027. A diferença entre as estimativas mostra que as instituições utilizam avaliações distintas e que o empresário não deve basear todo o seu planejamento em uma única previsão.

Juros e crédito: vale a pena adiar investimentos?

A taxa de juros influencia o custo dos empréstimos, o financiamento de máquinas, a compra de equipamentos e o capital de giro. Quando o crédito custa caro, a empresa precisa avaliar com mais cuidado o retorno esperado de cada investimento.

Mesmo que o mercado espere uma redução da Selic ao longo de 2027, isso não significa que todas as linhas de crédito ficarão mais baratas na mesma proporção ou imediatamente. Os bancos também consideram o risco do cliente, as garantias oferecidas, o prazo e as condições do mercado.

Por isso, antes de contratar um empréstimo ou financiar uma expansão, o empresário deve responder a algumas perguntas:

  • O investimento pode aumentar a receita ou reduzir custos de forma mensurável?
  • A empresa conseguirá pagar as parcelas mesmo se as vendas ficarem abaixo do esperado?
  • Existe dinheiro suficiente para manter a operação durante os primeiros meses?
  • Vale negociar as condições atuais ou buscar alternativas de financiamento?

Uma indústria que pretende comprar uma máquina, por exemplo, pode comparar o custo do financiamento com a economia que o equipamento proporcionará. Se a redução de despesas e o aumento da produção justificarem o investimento, esperar indefinidamente por juros menores também poderá representar uma oportunidade perdida.

O caminho mais prudente consiste em calcular o retorno, testar cenários e definir limites para o endividamento.

Orçamento de 2027 precisa considerar vários cenários

Outro passo importante é revisar o orçamento empresarial. Em vez de trabalhar com uma única previsão de vendas, o negócio pode elaborar três cenários: um mais favorável, um intermediário e outro mais conservador.

No cenário favorável, a empresa pode considerar aumento das vendas e melhora gradual das condições de crédito. Já no intermediário, projeta crescimento moderado e manutenção de parte das pressões sobre os custos. No conservador, avalia o que aconteceria se as receitas caíssem, os clientes atrasassem pagamentos ou as despesas aumentassem.

Essa comparação ajuda o gestor a identificar quanto dinheiro precisa manter disponível e quais despesas pode ajustar sem comprometer a operação.

Uma empresa de serviços, por exemplo, pode planejar a contratação de novos funcionários apenas quando alcançar determinado volume de contratos. Já um comércio pode estabelecer limites para a reposição de estoque conforme o ritmo das vendas.

O planejamento também precisa definir indicadores para acompanhar mensalmente, como faturamento, margem de lucro, inadimplência, despesas fixas e saldo de caixa. Dessa forma, a empresa consegue corrigir o rumo quando os resultados se afastam das projeções.

Custos e preços: atenção às margens de lucro

A inflação e as condições econômicas podem alterar o preço de insumos, energia, transporte, aluguel e serviços contratados. Se a empresa não acompanha essas variações, corre o risco de vender bastante e, mesmo assim, reduzir a margem de lucro.

O empresário deve revisar os contratos com fornecedores, identificar despesas que cresceram e verificar se os preços de venda ainda cobrem os custos e a margem desejada.

Isso não significa aumentar os preços automaticamente. Antes de tomar essa decisão, vale analisar a concorrência, o comportamento dos clientes, os custos de cada produto ou serviço e as possibilidades de melhorar a produtividade.

Em alguns casos, renegociar contratos, reduzir desperdícios ou reorganizar processos oferece resultados melhores do que repassar todos os aumentos ao consumidor.

Também é importante acompanhar o prazo entre pagar fornecedores e receber dos clientes. Uma operação lucrativa pode enfrentar dificuldades quando a empresa precisa desembolsar recursos muito antes de receber pelas vendas.

Reforma Tributária exige preparação desde já

A Reforma Tributária merece atenção especial no planejamento de 2027. O ano de 2026 funciona como período de teste para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). A partir de 2027, a transição avança com a cobrança da CBS e a extinção do PIS e da Cofins, conforme as regras aplicáveis.

Essa mudança exige que as empresas revisem seus processos fiscais e sistemas de emissão de documentos, além de avaliar os efeitos da nova tributação sobre preços, contratos, créditos e fluxo de caixa.

O impacto pode variar conforme a atividade, o regime tributário, o perfil dos clientes e dos fornecedores e as regras específicas aplicáveis a cada operação. Por isso, não basta considerar apenas uma alíquota isolada para prever se a carga tributária aumentará ou diminuirá.

O contador pode ajudar a mapear as operações da empresa, identificar ajustes necessários nos sistemas e simular diferentes efeitos sobre custos e margens. Também vale conferir se os documentos fiscais apresentam corretamente as informações exigidas e se os responsáveis pela emissão e pelo recebimento das notas conhecem os novos procedimentos.

Deixar essa preparação para a última hora pode aumentar o risco de erros, retrabalho e decisões comerciais baseadas em cálculos incompletos.

O que o contador deve revisar com seus clientes?

O planejamento de 2027 abre espaço para uma atuação mais próxima da gestão empresarial. Além de organizar as obrigações contábeis e fiscais, o profissional pode ajudar o cliente a transformar dados financeiros em decisões.

Entre os principais pontos de revisão estão:

  • Fluxo de caixa: projetar entradas e saídas e identificar períodos de maior pressão financeira.
  • Endividamento: avaliar juros, prazos, garantias e capacidade de pagamento.
  • Custos e margens: verificar quais produtos e serviços geram resultados e quais precisam de ajustes.
  • Orçamento: comparar as projeções com os resultados reais e definir limites para despesas.
  • Reforma Tributária: mapear as adequações fiscais, tecnológicas e operacionais necessárias.
  • Investimentos: simular o retorno esperado e testar a capacidade da empresa de suportar cenários menos favoráveis.

Essas análises ajudam o empresário a perceber problemas antes que eles comprometam a operação. Também permitem identificar oportunidades que poderiam passar despercebidas em uma gestão concentrada apenas no faturamento.

Planejar é melhor do que esperar por certezas

O resultado das eleições faz parte do contexto que orienta as expectativas econômicas, mas não determina sozinho o desempenho de cada negócio. A demanda dos clientes, a concorrência, a produtividade, a gestão financeira e a capacidade de adaptação também influenciam os resultados.

Por isso, o planejamento empresarial para 2027 precisa combinar atenção ao cenário econômico com controle sobre aquilo que a empresa consegue administrar. Rever despesas, acompanhar o caixa, avaliar dívidas e preparar os sistemas para a Reforma Tributária são medidas que podem começar antes mesmo de novas decisões governamentais.

Para empresários e contadores, a meta não deve ser adivinhar todos os movimentos da economia, mas preparar o negócio para responder a eles. Uma empresa que conhece seus números e estabelece critérios para investir, contratar e gastar tende a tomar decisões mais consistentes, mesmo quando o cenário muda.