Choque de gerações ou evolução da cultura?

O ambiente corporativo vive uma transformação cultural que convida as empresas a rever a forma como atraem, desenvolvem e retêm talentos

A convivência simultânea de quatro gerações no mercado de trabalho tem levado as empresas a enfrentar novos desafios de liderança, comunicação, retenção de talentos e desenvolvimento profissional. O que costuma ser tratado como “choque de gerações”, no entanto, pode refletir mais as mudanças na sociedade e no mundo do trabalho do que diferenças relacionadas à idade.

Dos Baby Boomers — pessoas nascidas entre 1946 e 1964 — à Geração Z (1996 a 2010), passando pelas gerações X (1965 a 1980) e Y (1981 a 1995), a presença de profissionais de diferentes idades pode ser vista como um fator de diversidade e inclusão nas organizações, com potencial para contribuir para o ambiente de trabalho e os resultados das empresas.

Embora seja comum associar determinadas características a cada geração, especialistas alertam que esses perfis não determinam o comportamento dos profissionais. As diferenças observadas nas empresas estão relacionadas, sobretudo, aos contextos históricos vividos por cada grupo. Enquanto muitos Baby Boomers iniciaram suas carreiras em um cenário que valorizava a estabilidade, a Geração Z chegou ao mercado após crises econômicas, vivenciou a pandemia no início da vida profissional e cresceu em um ambiente marcado pelas redes sociais e pela transformação digital.

Segundo Gabriela Paiva, coordenadora de Treinamento, Desenvolvimento e Seleção da Qualicorp, essa mudança de contexto exige uma nova postura das lideranças. Rótulos como “não tem comprometimento”, “não aguenta pressão” ou “muda de emprego à toa” deixam de explicar o comportamento dos profissionais quando analisados à luz das transformações no mercado de trabalho. O desafio passa a ser compreender as necessidades por trás dessas atitudes e adaptar práticas de gestão, comunicação e desenvolvimento a equipes cada vez mais multigeracionais.

Na prática, isso significa revisar estratégias de recrutamento, fortalecer programas de aprendizagem contínua, preparar líderes para gerir diferentes perfis e desenvolver políticas de retenção mais alinhadas ao momento de carreira dos profissionais, e não apenas à faixa etária. A proposta é substituir estereótipos por uma gestão baseada em contexto, diálogo e inclusão.

“Antes de olhar para o comportamento da geração, precisamos olhar para o viés de quem está avaliando. O RH também rotula, e isso pode aparecer nos nossos próprios processos. É fundamental que os profissionais dessa área tenham um olhar mais inclusivo e o compromisso de remover todos os vieses possíveis”, destaca Gabriela.

A Qualicorp lançou recentemente um programa de diversidade, equidade e inclusão que passou a dar mais espaço à diversidade geracional, com o objetivo de ampliar as discussões sobre o tema. Com mais de 1.200 colaboradores, dos quais 67% são mulheres, a empresa tem um quadro formado majoritariamente por profissionais da Geração Y, que representam 57% do total. A Geração Z vem ganhando espaço e já corresponde a 27% da companhia, quase o dobro da Geração X, com 14%.

“A diferença geracional nos traz novas perspectivas no dia a dia do trabalho. Na Qualicorp, por exemplo, temos desde jovens aprendizes até pessoas que estão na companhia há mais de 15 anos. Por isso, precisamos ter uma política de diversidade que olhe para múltiplos recortes”, explica Gabriela.

Ações para fortalecer a cultura em equipes multigeracionais

A Qualicorp cita algumas iniciativas adotadas com esse objetivo:

  • Recrutamento: adequar as estratégias de atração e seleção às linguagens e expectativas de diferentes gerações, ampliando a capacidade de atrair talentos.
  • Desenvolvimento: fortalecer programas de aprendizagem contínua, incentivando autonomia e protagonismo na carreira.
  • Clima: acompanhar percepções e comportamentos dos diferentes perfis geracionais para orientar ações de engajamento e melhorar a experiência dos colaboradores.
  • Retenção: analisar desligamentos considerando as diferentes fases da carreira e identificar estratégias de retenção mais adequadas a cada momento profissional.
  • Comunicação e liderança: adaptar a comunicação aos diferentes públicos e preparar as lideranças para uma gestão mais inclusiva e conectada às necessidades das equipes.

Uma iniciativa da Qualicorp voltada aos colaboradores mais jovens é o Programa de Desenvolvimento de Jovens Aprendizes, que oferece uma trilha personalizada de acordo com as necessidades desse público. A empresa promove palestras e conversas sobre temas como planejamento financeiro, posicionamento no mercado corporativo e inteligência artificial.

“Geração não é personalidade coletiva. É apenas um grupo que compartilha eventos históricos formativos em uma mesma janela da vida, não um conjunto fixo de traços de caráter. Daqui a alguns anos, provavelmente será a Geração Alpha — pessoas nascidas a partir de 2010 — que vai ouvir as mesmas críticas que a Geração Z costuma receber hoje. A pergunta é: o RH vai continuar reproduzindo esse ciclo ou vai ser quem o quebra?”, questiona Gabriela.