Classificar o ESG — conjunto de critérios ambientais, sociais e de governança — como “cultura woke” constitui um atalho retórico que deslegitima iniciativas diretamente relacionadas à gestão de riscos operacionais, à continuidade dos negócios e à criação de valor.
Reduzir temas como segurança, ética, pessoas e meio ambiente a uma simples narrativa não representa pragmatismo, mas uma visão limitada.
Tentar enfraquecer a agenda ESG não é recente; antecede em décadas a popularização do termo. Em 1987, Paul O’Neill assumiu a presidência da Alcoa, tradicional empresa produtora de alumínio dos Estados Unidos, que atravessava um momento delicado.
Pressionada pela concorrência internacional, por margens comprimidas, falhas operacionais e baixa atratividade para investidores, o mercado esperava um CEO focado em cortes de custos e eficiência financeira.
Paul O’Neill não se encaixava nesse perfil. Economista com passagens relevantes pelo setor público e experiência em ambientes organizacionais complexos, trazia uma visão sistêmica de gestão.
No primeiro discurso, contrariou completamente as expectativas ao afirmar que sua prioridade absoluta seria eliminar acidentes de trabalho.
A reação do mercado foi marcada por ceticismo, recomendações de venda e comentários depreciativos, como se aquele fosse um discurso hippie de alguém que desconhecesse a indústria pesada.
Não perceberam que a decisão não tinha nada de ideológica; era profundamente estratégica. Ao colocar segurança como métrica central, forçou a organização a enfrentar problemas estruturais antes naturalizados.
Processos mal definidos, improvisações no chão de fábrica, falhas de comunicação, baixa disciplina operacional e tolerância a desvios passaram a ser expostos de forma sistemática. A segurança tornou-se um indicador claro da qualidade do sistema de gestão.
Como resultado, a Alcoa passou de um valor de mercado de US$ 3 bilhões em 1986 para US$ 27,5 bilhões em 2000, enquanto o lucro líquido anual avançou de cerca de US$ 200 milhões para US$ 1,5 bilhão.
Estudos de caso também indicam aumento de 45% na produtividade por empregado e redução em torno de 85% no tempo perdido por lesões. A suposta agenda “soft” acabou sendo reconhecida pelo mercado como eficiência, previsibilidade e criação consistente de valor.
Naquela época, o rótulo ESG sequer existia. Ainda assim, a estratégia de O’Neill dialoga diretamente com seus fundamentos. A proteção da vida e da integridade física dos trabalhadores materializa o pilar social.
A liderança clara, a disciplina no uso de métricas e a responsabilização em todos os níveis refletem o pilar de governança.
A conclusão é simples. Não existe sustentabilidade operacional e financeira ignorando pessoas e o ambiente.
O lucro que desconsidera esses fatores tende a acumular passivos ocultos, interrupções operacionais e erosão de confiança. O caso da Alcoa mostra que ESG, quando tratado com seriedade, não é ideologia, é gestão.