A recuperação judicial envolveu 2.466 CNPJs em 2025, alta de 13% e maior volume da série histórica da Serasa Experian. No primeiro trimestre de 2026, o Monitor RGF apontou novo recorde no estoque de companhias em reestruturação, com 5.931 empresas em processo aberto no país.
O avanço, puxado por crédito mais restrito, juros elevados e margens comprimidas, revelou outro entrave para negócios em crise: a falta de profissionais preparados para conduzir processos complexos de reorganização.
O alerta é de Marcos Pelozato, advogado, contador e empresário com 14 anos de atuação em reestruturação empresarial e recuperação judicial. Segundo ele, o aumento da procura pelo instrumento legal não foi acompanhado, na mesma velocidade, pela formação de especialistas capazes de avaliar a viabilidade econômica das empresas, negociar com credores e estruturar planos sustentáveis de pagamento. "A recuperação judicial não depende apenas de uma medida jurídica. Ela exige diagnóstico financeiro, leitura contábil, estratégia tributária, negociação e capacidade de reorganizar a operação. Quando falta esse conjunto, o processo começa fragilizado", afirma.
A recuperação judicial, prevista na Lei nº 11.101/2005, permite que empresas em dificuldade renegociem dívidas sob supervisão da Justiça, com o objetivo de manter a atividade econômica, preservar empregos e evitar a falência. Na prática, porém, especialistas afirmam que muitos pedidos chegam ao Judiciário quando o caixa já está deteriorado, os credores perderam confiança e a empresa deixou de ter previsibilidade para cumprir novos compromissos.
Para Pelozato, esse atraso está ligado tanto à resistência dos empresários em admitir a crise quanto à escassez de orientação técnica nas fases iniciais do problema. "O empresário costuma procurar ajuda quando as execuções já se acumulam, o crédito secou e os fornecedores reduziram o prazo. Nesse ponto, ainda pode haver saída, mas a margem de negociação é menor. A recuperação judicial precisa ser tratada como estratégia de preservação do negócio, não como último suspiro antes da falência", diz.
O gargalo profissional também afeta credores, bancos, fornecedores e investidores. Um plano de recuperação mal elaborado pode alongar disputas, elevar custos, reduzir a previsibilidade de pagamento e diminuir a chance de reestruturação efetiva. Segundo o Diário do Comércio, com base no Monitor RGF, 29% das empresas que encerraram a recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026 tiveram a falência decretada.
A complexidade do tema exige atuação multidisciplinar. Além do domínio jurídico, profissionais da área precisam compreender fluxo de caixa, endividamento bancário, passivo fiscal, garantias, capital de giro, estrutura societária e capacidade real de geração de receita. Sem essa leitura integrada, a recuperação corre o risco de se transformar em um processo formal sem efeito concreto sobre a operação.
"Não basta conhecer a lei. É preciso entender a empresa por dentro. Muitas vezes, o problema não está em uma dívida isolada, mas em uma estrutura inteira que perdeu eficiência. Se o plano não conversa com a realidade do negócio, ele não se sustenta", afirma Pelozato.
A falta de especialistas pesa principalmente sobre empresas de pequeno e médio porte, que costumam ter menos acesso a assessorias estruturadas e menor maturidade de gestão. Esses negócios, quando entram em crise, enfrentam dificuldade para mapear dívidas, organizar documentos, revisar contratos e apresentar informações consistentes aos credores. O resultado é um processo mais vulnerável a impugnações, atrasos e perda de valor.
Para o especialista, a formação de profissionais em recuperação judicial tende a se tornar uma demanda crescente nos próximos anos, especialmente entre advogados, contadores e consultores empresariais. "O país tem muitas empresas endividadas, mas ainda tem pouca gente preparada para conduzir reestruturações com profundidade. Formar especialistas nessa área não é apenas uma oportunidade de mercado. É uma necessidade econômica", diz.
Na avaliação de Pelozato, ampliar a base de profissionais capacitados pode melhorar a qualidade dos processos e aumentar as chances de preservação de empresas viáveis. "Quando uma companhia consegue se reorganizar, ela mantém empregos, contratos, fornecedores e arrecadação. Quando falta preparo técnico, todo o ecossistema perde valor. A recuperação judicial bem conduzida não salva apenas uma empresa. Ela protege uma cadeia inteira", conclui.
Sobre Marcos Pelozato
Marcos Pelozato é advogado, contador e empresário com 14 anos de atuação no setor de reestruturação empresarial e recuperação judicial. Reconhecido como referência no segmento, presta assessoria estratégica a empresas em crise financeira, com foco em reorganização societária, gestão de passivos e recuperação de negócios. À frente de um escritório especializado, Marcos também atua como conselheiro para advogados e contadores interessados em ingressar na área de reestruturação, com o objetivo de ampliar o número de profissionais capacitados a atuar diante da crescente demanda por soluções eficazes em gestão de crise.
Para mais informações, acesse: youtube.com/@marcospelozato.oficial, instagram ou pelo LInkedin.