O Banco Central (BC) cortou nesta quarta-feira (5) a Selic, referência para as demais taxas de juros, em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Trata-se do menor patamar desde março de 2025. Foi a quarta redução consecutiva, em decisão unânime e já esperada pelo mercado financeiro. A Selic influencia indiretamente o crédito imobiliário, sobretudo o financiamento de imóveis mais caros, a partir de R$ 600 mil.
O comunicado divulgado após a decisão manteve boa parte das informações trazidas no anterior, mas enxugou alguns pontos e trouxe alterações mais pontuais. O BC destacou que a inflação cheia mostrou desaceleração, mas ainda segue acima do teto da meta, e incluiu a expressão “risco altista” ao ponderar sobre a trajetória dos preços. A projeção para o IPCA de 2026 caiu de 5,2% para 5,1%, mas subiu a expectativa de 2027, de 3,7% para 3,8%.
Também houve um reconhecimento que a economia começa a desacelerar, embora o mercado de trabalho continue forte. O que se manteve similar foi a afirmação de que a autoridade monetária depende de novas informações para decidir o tamanho total do ciclo de ajuste da Selic. É um trecho que mantém em aberto os próximos passos.
Dados mais recentes de inflação, como o IPCA-15, que ficou praticamente estável em julho, reforçaram a visão de que havia espaço para um corte adicional da Selic.
O boletim Focus, que reúne a opinião de mais de 100 instituições financeiras, indicou no início desta semana a expectativa por mais uma redução da Selic, o que levaria a taxa a 13,75% ao ano no fim de 2026. É o mesmo percentual previsto antes da reunião anterior do BC, cerca de 45 dias atrás. Nesse intervalo, porém, a projeção voltou a ficar em 14% ao ano, para então retornar a 13,75%.
Entidades do setor de construção consideraram o corte da Selic como positivo e pediram a continuidade do movimento.
“A pesquisa Focus projeta a Selic em 13,75% ao final de 2026, indicando que o espaço para novos cortes neste ano continua bastante limitado. Isso significa que o país ainda deverá conviver por um período prolongado com uma taxa de juros elevada, o que reduz o dinamismo a economia e dificulta a retomada dos investimentos. A continuidade desse processo de redução será fundamental para criar um ambiente mais favorável ao crescimento sustentável”, afirma Ieda Vasconcelos, economista-chefe da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic).
Já a Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc) avalia que, na prática, pouco se altera o ambiente de crédito restritivo. “Apoiamos a responsabilidade fiscal e monetária, mas entendemos que os juros precisam ser reduzidos de forma mais acelerada. O crédito continua caro para famílias e empresas, limitando investimentos, consumo e a capacidade de financiamento da economia. É fundalmente avançar em um ciclo mais consistente e rápido de redução dos juros para recuperar com mais força a capacidade de crescimento do país”, afirma Luiz França, presidente da Abrainc.
Os imóveis populares financiados pelo Minha Casa Minha Vida, entre R$ 275 mil e R$ 600 mil, são praticamente imunes às oscilações de juros, uma vez que contam com taxas subsidiadas.
No segmento seguinte, entre R$ 600 mil e R$ 2,25 milhões, o impacto tende a ser mais sentido, sobretudo a partir da Taxa Referencial (TR), usada para reajustar as parcelas de um financiamento.
As mudanças na Selic, em geral, chegam com defasagem para as taxas do crédito em geral, incluindo o segmento imobiliário. Ou seja, o consumidor sentirá redução no custo apenas alguns meses adiante.
“Mas o comprador deve avaliar que, quando o custo do financiamento cair, o preço do imóvel deverá subir. Por isso, vale analisar a opção de adquirir o imóvel agora, antes que o preço suba, e depois tente aproveitar a portabilidade do crédito”, afirma Fábio Takahashi, gerente de dados da Loft.
Outro canal de influência da Selic é na disponibilidade de recursos. Apesar das reduções neste ano, a taxa ainda está em patamar elevado, o que ajuda a puxar uma migração de investidores da poupança para aplicações atreladas ao CDI, igualmente seguras e com remuneração maior.
A poupança é a principal fonte de financiamento para as classes média e alta. No acumulado do primeiro semestre, a carteira total de crédito do setor estava em R$ 601 bilhões, o que representa 121% dos recursos da poupança livres para empréstimos habitacionais (cerca de R$ 496 bilhões), considerando o percentual “antigo” de 65% do saldo, para permitir a comparação com anos anteriores. Em 2021, a proporção estava em 78%.
A Abecip estima que, a partir da liberação do compulsório aprovada no ano passado, o montante disponível na poupança para o setor está em R$ 535 bilhões.
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