A inteligência artificial aplicada aos negócios começa a ocupar uma função que vai além da produção de textos, imagens ou automações isoladas. Entre os pequenos negócios brasileiros, 52% dos empreendedores afirmaram ter utilizado IA nas duas semanas anteriores à pesquisa Transformação Digital nos Pequenos Negócios 2026, divulgada pelo Sebrae em agosto. O levantamento ouviu 7.182 microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte entre março e maio deste ano.
Rica Mello, economista, empresário e executivo com trajetória em consultoria estratégica, gestão e desenvolvimento de negócios, avalia que a mudança mais importante ocorre quando a tecnologia deixa de ser tratada apenas como uma ferramenta operacional e passa a fazer parte da administração. "A inteligência artificial aplicada aos negócios ganha outra dimensão quando entra nos processos, nos indicadores e na tomada de decisão. O ponto não é simplesmente usar IA, mas entender onde ela melhora a gestão e o que fazer com aquilo que ela entrega", afirma.
Os próprios dados do Sebrae mostram que essa incorporação começa a provocar mudanças dentro das empresas. Entre os pequenos negócios brasileiros pesquisados, 46% precisaram desenvolver novos fluxos de trabalho para integrar ferramentas de inteligência artificial. Outros 60% disseram que pretendem começar a usar ou ampliar a utilização da tecnologia nos seis meses seguintes.
Inteligência artificial aplicada aos negócios exige processos mais claros
A mudança de fluxo ajuda a explicar por que a discussão sobre IA começa a chegar às áreas de gestão. Segundo o levantamento do Sebrae, o principal uso entre os pequenos negócios brasileiros ocorre para aprimorar tarefas que já eram realizadas pelos profissionais, situação mencionada por 28% dos entrevistados. Outros 19% disseram utilizar a tecnologia para introduzir novas funções.
Para o economista, colocar uma ferramenta sobre um processo mal estruturado não resolve necessariamente o problema da empresa. "Antes de escolher qual IA usar, o empresário precisa entender qual processo quer melhorar, qual indicador precisa acompanhar e qual decisão pretende tomar. Tecnologia acelera a execução, mas gestão define a direção", ressalta.
Na prática, isso pode significar usar inteligência artificial para consolidar dados de vendas, acompanhar custos, organizar informações financeiras, identificar desvios de desempenho, resumir reuniões ou automatizar tarefas administrativas. O ganho, porém, depende da capacidade de conectar essas entregas à rotina da companhia. "Se a IA aponta uma queda de margem ou identifica um atraso recorrente, ainda é necessário decidir o que fazer, determinar quem será responsável pela mudança e acompanhar o resultado. A tecnologia entrega informação e capacidade de análise. Transformar isso em ação continua sendo uma responsabilidade de gestão", diz o especialista.
Empresas usam IA, mas ainda enfrentam dificuldade para ganhar escala
A diferença entre utilizar inteligência artificial e reorganizar a empresa ao redor dela também aparece nas grandes companhias. Pesquisa global da McKinsey divulgada em novembro de 2025 mostrou que 88% dos entrevistados afirmaram que suas organizações utilizavam IA regularmente em pelo menos uma função. Apesar da alta adoção, aproximadamente um terço declarou que a empresa já havia começado a ampliar seus programas de inteligência artificial pela organização.
O levantamento ouviu 1.993 participantes de 105 países e mostrou que a maior parte das companhias ainda estava em fases de experimentação ou projetos piloto. A pesquisa também identificou o redesenho dos fluxos de trabalho como um dos fatores mais associados à geração de impacto empresarial com a tecnologia.
Entre as empresas classificadas pela McKinsey como de alto desempenho em IA, a probabilidade de redesenhar profundamente os fluxos de trabalho era quase três vezes maior do que entre as demais.
Para Rica, o dado reforça que a discussão deixou de ser exclusivamente tecnológica. "Não adianta colocar inteligência artificial em várias áreas se cada uma continua funcionando de forma desconectada. Quando a empresa organiza processos, indicadores e responsabilidades, a IA consegue participar de uma estrutura de gestão. Sem isso, existe o risco de acumular ferramentas sem mudar o resultado do negócio", aponta.
O próximo passo está na tomada de decisão
A evolução também começa a chegar aos agentes de inteligência artificial, sistemas capazes de executar diferentes etapas de uma atividade. Segundo a McKinsey, 62% das organizações pesquisadas já estavam experimentando ou ampliando aplicações com agentes de IA. A implementação, porém, permanecia concentrada em poucas funções.
A tendência amplia as possibilidades para pequenas e médias empresas, que podem automatizar atividades antes dependentes de estruturas maiores. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de estabelecer limites, métricas e responsabilidades.
Para o economista, a vantagem tende a migrar do simples acesso às ferramentas para a capacidade de incorporá-las ao funcionamento da empresa. "O empresário não precisa transformar seu negócio em uma empresa de tecnologia. Precisa saber transformar tecnologia em capacidade de gestão. Quando a IA ajuda a enxergar melhor os números, organizar processos e tomar decisões com mais consistência, deixa de ser uma novidade tecnológica e passa a fazer parte da forma de administrar", conclui.
Sobre Rica Mello
Rica Mello é economista, empresário e executivo com trajetória em consultoria estratégica, gestão e desenvolvimento de negócios. Antes de empreender, atuou por cerca de dez anos na McKinsey & Company e na Bain & Company, trabalhando com projetos de estratégia, crescimento, eficiência operacional e gestão empresarial.É formado em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), possui MBA pela Kellogg School of Management, da Northwestern University e participou do Executive Program da Singularity University, em 2019.
Ao longo da carreira, passou da consultoria para a operação de empresas e hoje está à frente de negócios em diferentes setores, entre eles indústria, distribuição, importação, varejo, e-commerce e educação. A experiência em segmentos distintos consolidou uma atuação voltada a estratégia empresarial, gestão financeira, produtividade, crescimento, liderança e tomada de decisão.
Também acompanha temas ligados à transformação dos modelos de gestão, uso de tecnologia nos negócios e desafios enfrentados por pequenas e médias empresas no Brasil.
Rica já esteve em 136 países e conciliou, ao longo dos anos, a rotina internacional com a gestão de seus negócios.
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