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Split Payment: o impacto sobre a liquidez

Mais do que o valor que deixará de passar pelo caixa, o ponto de atenção está no custo de substituir a liquidez que hoje permanece temporariamente disponível

Autor: Da RedaçãoFonte: GRM AdvogadosLink: https://grm.com.br/split-payment-o-impacto-sobre-a-liquidez/

O split payment muda a forma como IBS e CBS serão recolhidos e pode alterar a dinâmica financeira das empresas. Mais do que o valor que deixará de passar pelo caixa, o ponto de atenção está no custo de substituir a liquidez que hoje permanece temporariamente disponível.

O mecanismo está previsto na Lei Complementar nº 214/2025 e integra o desenho da reforma tributária. Com sua implementação, a parcela correspondente aos tributos será segregada no momento da liquidação financeira da operação e direcionada ao Erário.

Split payment muda a dinâmica do caixa

O split payment não aumenta, por si só, a carga tributária. A mudança está principalmente no momento e na forma de recolhimento.

No modelo atual, quando uma empresa recebe do cliente antes do vencimento do tributo, existe um intervalo em que esses recursos permanecem disponíveis no caixa. Esse período pode ser utilizado para financiar a operação ou reduzir a necessidade de contratação de crédito.

Esse benefício financeiro é conhecido como float.

Com o split payment, essa parcela deixa de permanecer temporariamente com a empresa e é direcionada ao Fisco no momento da liquidação financeira.

O custo não é o imposto que sai do caixa

Esse é um dos principais pontos para a análise empresarial.

O valor do tributo já seria devido pela empresa. O que muda é a possibilidade de utilizar temporariamente esses recursos antes do recolhimento.

Por isso, o impacto financeiro deve ser analisado a partir de uma pergunta diferente:

quanto custa para a empresa substituir a liquidez que antes estava disponível no caixa?

A resposta varia conforme o ciclo financeiro e as condições de crédito de cada negócio.

Estoque de liquidez e custo financeiro são coisas diferentes

Um dos riscos da análise simplificada do split payment é confundir o volume de recursos que deixa de transitar pelo caixa com o custo financeiro permanente dessa mudança.

São duas dimensões diferentes.

  • Estoque: representa o montante de liquidez que deixa de ficar temporariamente disponível para a empresa.
  • Fluxo: representa o custo recorrente de financiar essa liquidez com recursos próprios ou de terceiros.

Uma empresa pode precisar substituir um volume relevante de recursos no caixa, mas isso não significa que esse mesmo valor represente seu custo financeiro anual.

O impacto recorrente dependerá principalmente do custo de financiamento necessário para recompor essa liquidez.

Quem pode sentir mais o impacto?

O efeito não será necessariamente proporcional ao tamanho ou ao faturamento da empresa.

Empresas com menor liquidez ou acesso mais restrito ao crédito podem enfrentar um impacto maior, porque normalmente estão sujeitas a custos de financiamento mais elevados e limites de crédito mais apertados.

Na prática, a mesma redução de liquidez pode ter efeitos muito diferentes sobre empresas com estruturas financeiras distintas.

Isso torna importante avaliar o split payment dentro da realidade financeira de cada negócio.

O ciclo de recebimento será determinante

Outro fator relevante é o prazo entre a venda e o recebimento.

Quando a empresa recebe antes do vencimento do tributo, existe potencialmente um período de float que será eliminado.

Já quando o recebimento ocorre depois do vencimento tributário, a empresa pode já estar financiando o imposto antes mesmo de receber do cliente.

Por isso, o impacto deve ser calculado a partir do ciclo financeiro real da empresa, e não apenas sobre seu faturamento.

Créditos tributários também entram na conta

A análise do split payment não termina na segregação do imposto.

Empresas que acumulam saldos credores de IBS e CBS também precisarão considerar o prazo de recuperação desses valores.

O problema ganha relevância para negócios estruturalmente credores, como exportadores, empresas em ciclos intensivos de investimento e operações sazonais.

Quando o ressarcimento demora, recursos permanecem imobilizados e passam a representar outro custo financeiro para a empresa.

Assim, a velocidade de restituição dos créditos será uma variável importante para determinar o impacto efetivo da reforma sobre a liquidez.

Crédito tributário pode gerar custo financeiro na cadeia

Outro ponto relevante está na relação entre o recolhimento do tributo e o aproveitamento dos créditos.

A Lei Complementar nº 214/2025 estabelece, em seu artigo 47, que a apropriação do crédito pode estar vinculada à extinção do débito correspondente.

Isso cria uma situação que merece atenção empresarial: o comprador pode ter direito ao crédito, mas precisar aguardar a regularização do tributo devido na etapa anterior para utilizá-lo.

Na prática, isso pode gerar uma espécie de custo financeiro temporário na cadeia.

O problema não é necessariamente a inexistência do crédito.

O ponto de atenção está no possível intervalo entre o reconhecimento do crédito e sua efetiva utilização.

Para empresas que trabalham com grandes volumes de compras, esse intervalo pode afetar diretamente o capital de giro.

Além do caixa, existe o custo de adaptação

A implementação do split payment também exigirá investimentos em processos, sistemas e controles.

Empresas precisarão avaliar como a nova dinâmica de recolhimento afetará:

  • sistemas de gestão e faturamento;
  • conciliação financeira e tributária;
  • fluxo de caixa;
  • contas a receber;
  • aproveitamento de créditos;
  • controles internos e compliance.

Esse custo de adaptação tende a pesar proporcionalmente mais sobre empresas menores, porque parte das despesas necessárias para adequação não cresce na mesma proporção do faturamento.

O que as empresas devem avaliar agora?

A implementação gradual do split payment a partir de 2027 cria uma janela para que as empresas mensurem os efeitos antes que o novo modelo esteja plenamente operacional.

O primeiro passo é abandonar uma análise baseada apenas no volume de tributos que deixará de transitar pelo caixa.

É necessário calcular o impacto sobre a liquidez considerando:

  • prazo médio de recebimento dos clientes;
  • prazo de recolhimento atualmente praticado;
  • volume de operações sujeitas ao split payment;
  • custo médio de capital da empresa;
  • necessidade de capital de giro;
  • saldo e prazo de recuperação dos créditos tributários;
  • investimentos necessários para adequação dos sistemas.

Esse diagnóstico permite transformar uma mudança tributária em uma variável financeira mensurável.

O split payment não deve ser analisado apenas pelo volume de recursos que deixará de circular pelo caixa. O verdadeiro impacto econômico está no preço da liquidez: quanto custará para a empresa substituir os recursos que antes permaneciam temporariamente disponíveis.

A resposta será diferente para cada negócio. Empresas com ciclos de recebimento mais longos, maior dependência de capital de giro ou acesso mais caro ao crédito podem sentir efeitos mais relevantes. Da mesma forma, o prazo de recuperação dos créditos e o custo de adaptação operacional serão determinantes.

Por isso, a preparação para a reforma tributária deve incluir uma análise financeira do split payment, conectando tributação, capital de giro, crédito e operação.

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