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A entrada em vigor das atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passam a exigir maior atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho, marca uma mudança importante para agências de publicidade, empresas de comunicação, marketing e demais negócios da economia criativa.
Acostumado a operar em um ambiente de alta velocidade, múltiplas demandas simultâneas e forte pressão por inovação, o setor passa a ser desafiado a equilibrar produtividade, criatividade e saúde mental de forma mais estruturada.
Para Anderson Xavier, CTO e sócio-diretor da Y’ALL, a principal mudança promovida pela NR-1 é retirar a saúde mental do campo das iniciativas voluntárias e colocá-la definitivamente dentro da gestão de riscos das organizações.
“A atualização da NR-1 muda a discussão porque tira a saúde mental do campo apenas subjetivo ou voluntário e coloca o tema dentro da gestão de riscos das empresas. Para agências e empresas criativas, isso é especialmente relevante porque o nosso setor trabalha com prazos curtos, entregas simultâneas, pressão por ideias, mudanças rápidas e uma rotina muito atravessada por urgências”, afirma.
Segundo ele, a norma ajuda a consolidar uma visão mais sustentável da produtividade. “Ela ajuda a amadurecer uma visão que já deveria estar presente: produtividade não pode ser medida apenas pela velocidade da entrega. Também precisa considerar a sustentabilidade da operação, a qualidade das relações e a saúde emocional das equipes.”
Se antes programas de bem-estar eram vistos como benefícios corporativos, hoje eles começam a ocupar uma posição estratégica nos negócios criativos.
Isso porque a principal matéria-prima das agências não está em equipamentos ou tecnologias, mas na capacidade intelectual e criativa de seus profissionais.
“Quando uma equipe está emocionalmente saudável, ela tende a pensar melhor, trocar melhor, construir melhor e sustentar entregas com mais qualidade. Quando está sobrecarregada, aparecem queda de repertório, aumento de conflitos, retrabalho e maior risco de turnover”, explica Xavier.
Na avaliação do executivo, cuidar da saúde mental passou a ser um fator diretamente relacionado à competitividade, à inovação e à retenção de talentos.
Ao mesmo tempo em que a Inteligência Artificial vem revolucionando os processos nas agências, ela também traz novos desafios para a gestão das equipes.
Ferramentas de IA já participam de atividades como brainstorming, pesquisa, planejamento, produção de conteúdo, design e análise de dados, reduzindo significativamente o tempo operacional de diversas tarefas.
Entretanto, Xavier alerta para um risco crescente: confundir ganho de produtividade com capacidade ilimitada de entrega.
“A IA reduz tempo operacional, mas não elimina a necessidade de reflexão, curadoria, tomada de decisão, sensibilidade criativa e alinhamento estratégico. Esses continuam sendo processos humanos”, destaca.
Segundo ele, muitas empresas acabam utilizando a eficiência proporcionada pela tecnologia para aumentar o volume de demandas sem revisar a capacidade real das equipes.
“O resultado pode ser mais pressão, mais urgência, mais interrupções e menos tempo de maturação criativa.”
Nesse novo cenário, a área de Recursos Humanos ganha protagonismo na prevenção de riscos psicossociais.
Para Xavier, o RH precisa atuar de forma cada vez mais próxima da operação, monitorando o clima organizacional, orientando lideranças e identificando sinais de desgaste antes que eles evoluam para problemas mais graves.
Na Y’ALL, por exemplo, o acompanhamento acontece por meio de conversas mensais com colaboradores e monitoramento contínuo de possíveis fatores de risco.
“Esse acompanhamento ajuda a identificar sinais de desgaste emocional, conflitos internos, excesso de demandas ou ruídos de comunicação”, explica.
Além disso, o RH pode apoiar a redistribuição de tarefas, revisar processos, desenvolver treinamentos e fortalecer práticas de gestão mais saudáveis.
Em empresas criativas, os sinais de sobrecarga costumam surgir gradualmente, mas podem ser identificados com atenção.
Entre os principais indicadores estão queda de energia, irritabilidade, atrasos recorrentes, aumento de retrabalho, dificuldade de concentração, isolamento, perda de entusiasmo e crescimento dos conflitos internos.
Outro sintoma comum é quando todas as atividades passam a ser tratadas como urgentes.
“Quando não existe espaço para pausa, troca, revisão e maturação, a criatividade começa a perder profundidade”, alerta Xavier.
Mudanças bruscas de comportamento também merecem atenção. Profissionais antes participativos e colaborativos podem passar a demonstrar retraimento, respostas defensivas ou cansaço constante.
Para prevenir situações de desgaste emocional, pressão excessiva e até assédio moral, a proximidade entre liderança e equipes é apontada como um fator decisivo.
Na Y’ALL, sócios, diretores e gestores compartilham o mesmo ambiente de trabalho dos colaboradores, favorecendo uma observação mais próxima da rotina e dos desafios enfrentados pelas equipes.
“Cobrança faz parte da rotina de qualquer negócio, mas ela não pode se transformar em abuso, exposição, ameaça ou humilhação”, ressalta o executivo.
Ele destaca que líderes precisam estar preparados para identificar sinais de sobrecarga, redistribuir demandas quando necessário e agir rapidamente diante de comportamentos tóxicos.
Outro elemento que ganha relevância com a NR-1 é a existência de canais de escuta e denúncia.
Em ambientes de alta pressão, problemas como comunicação agressiva, excesso de urgência e conflitos internos podem acabar sendo normalizados.
Por isso, mecanismos estruturados de ouvidoria ajudam a identificar situações de risco antes que elas se agravem.
Na Y’ALL, a ferramenta interna chamada OI permite manifestações anônimas ou identificadas dos colaboradores.
“Mais do que cumprir uma exigência, a ouvidoria mostra que a empresa está disposta a escutar, investigar e agir”, afirma Xavier.
Uma das estratégias utilizadas pela empresa para evitar sobrecarga é a contratação de freelancers em períodos de maior demanda.
Segundo o executivo, o reforço temporário ajuda a manter a qualidade das entregas sem comprometer o bem-estar das equipes.
“A lógica precisa deixar de ser ‘fazer mais com menos’ a qualquer custo. Sustentabilidade operacional também significa saber quando reforçar o time”, destaca.
Embora o mercado exija rapidez, Xavier lembra que criatividade não nasce apenas da velocidade.
Ela depende de repertório, observação, escuta, colaboração e tempo para amadurecimento das ideias.
“Existe uma diferença entre ser ágil e operar em estado permanente de emergência”, afirma.
Para ele, ambientes saudáveis são aqueles em que as pessoas têm espaço para pensar, testar hipóteses, discordar e construir soluções de forma colaborativa.
Mais do que uma obrigação legal, a atualização da NR-1 pode representar uma oportunidade para fortalecer a cultura organizacional, aumentar a retenção de talentos e elevar a qualidade das entregas.
“A partir do momento em que a empresa passa a mapear riscos psicossociais, revisar processos, treinar lideranças, fortalecer canais de escuta e acompanhar melhor as equipes, ela melhora não apenas o ambiente de trabalho, mas também a qualidade da operação”, afirma Xavier.
Para o executivo, a norma reforça uma tendência que já vinha ganhando força no mercado: a compreensão de que saúde mental não é apenas uma pauta de bem-estar, mas uma decisão estratégica de negócio.
“No fim, empresas que cuidam melhor das pessoas tendem a reter melhor seus talentos, criar ambientes mais saudáveis e entregar trabalhos mais consistentes”, conclui.
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| Atualizado em: 17/06/2026 12:34 | ||