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Uma fila na porta, uma agenda lotada, um produto que ninguém encontra, moradores que atravessam a cidade para comprar algo que não existe perto de casa. Esses sinais podem indicar uma oportunidade de negócio. Mas também podem enganar, caso não se faça um mergulho mais aprofundado no porquê do comportamento do consumidor.
No Brasil, o risco de abrir uma empresa sem conhecer bem o mercado é relevante. Segundo estudo do Sebrae, 29% dos MEIs, 21,6% das microempresas e 17% das empresas de pequeno porte fecham após cinco anos. Entre os fatores associados ao encerramento aparecem falta de planejamento e de conhecimento sobre aspectos importantes do negócio.
A boa notícia para quem pretende empreender é que parte considerável da investigação pode ser feita antes de colocar dinheiro na operação. O “Mapa de Empresas” do governo federal, por exemplo, reúne informações sobre negócios abertos e fechados, localização e atividades econômicas. Em julho de 2026, havia 25,4 milhões de empresas ativas no país e 485 mil novos negócios foram abertos no mês.
A pergunta para quem está considerando empreender, portanto, não é apenas “o que eu poderia vender?”. É preciso investigar quem compraria, onde está esse consumidor e se há gente suficiente para pagar pelo produto ou serviço.
Veja o passo a passo a seguir:
O passo inicial é procurar problemas recorrentes. Pessoas reclamando de preços altos, dificuldade para encontrar um produto ou serviço e falta de estoque são pistas. Outro sinal é o deslocamento, ou seja, se o consumidor precisa ir para outro bairro ou cidade para comprar algo, pode existir espaço para uma oferta local.
Há, ainda, a dinâmica da região. Novos condomínios, empresas, escolas e moradores podem criar demanda antes que os negócios apareçam. “Antes de investir dinheiro, o empreendedor precisa investir tempo para reduzir a incerteza. Não existe garantia de sucesso, mas é possível transformar uma ideia em hipóteses e testá-las com dados”, afirma Arnóbio Durães, professor da FIA Business School, doutor em Controladoria, Finanças e Tecnologias de Gestão.
O alerta é não confundir reclamação com oportunidade. “O empreendedor precisa descobrir se o consumidor está disposto a pagar para resolver aquele problema”, diz Durães.
Antes de pensar no imóvel para locar, olhe os números. População, renda, idade, número de domicílios, crescimento da região, quantidade de empresas e concentração de empregos ajudam a dimensionar o mercado.
O Mapa de Empresas permite consultar dados por atividade e localização. O IBGE oferece informações demográficas e econômicas. Prefeituras e associações comerciais também podem ajudar.
“A renda média pode enganar. Para o empreendedor, muitas vezes é mais importante conhecer onde está o cliente e como ele se comporta do que simplesmente conhecer a renda média da cidade”, afirma Durães.
Karla Scalçone, consultora de negócios do Sebrae-SP, recomenda cruzar diferentes fontes, incluindo ferramentas de inteligência de mercado e dados sobre concorrentes. A ideia é sair da percepção e chegar a uma estimativa do público que realmente poderia comprar.
Isso está sujeito ao tipo do negócio. Uma padaria, academia, salão de beleza ou restaurante dependem bastante de consumidores próximos. Já uma clínica especializada, uma loja de noivas ou um serviço raro podem atrair clientes de toda a cidade.
“O empreendedor deve olhar para o bairro para consumo mais frequente e conveniência e olhar para a cidade inteira para serviços raros, compras mais planejadas ou um delivery mais amplo”, orienta Scalçone.
Dez restaurantes lotados podem indicar demanda. Dois restaurantes vazios podem indicar o contrário. Porém, além de contar empresas, o empreendedor deve observar qualidade, preços, variedade, horários, atendimento, reputação e reclamações.
“Um mercado com muitos concorrentes pode demonstrar que existe demanda. O problema aparece quando a oferta é muito superior a ela e o empreendedor não consegue apresentar uma proposta diferente”, afirma Durães.
Scalçone sugere olhar especialmente para as avaliações negativas. Queixas repetidas sobre atraso, atendimento, falta de opções ou demora para responder mensagens podem revelar uma brecha. “No mercado aquecido há negócios cheios de clientes e com propostas distintas. Já no saturado, todos oferecem o mesmo e disputam apenas preço”, afirma.
Uma pesquisa não precisa custar caro. Pode começar com conversas na rua, questionários on-line ou entrevistas com potenciais consumidores. O segredo é perguntar sobre o que a pessoa já fez, e não apenas sobre o que ela diz que faria.
Em vez de “você compraria meu produto?”, vale questionar: “Onde compra hoje?”, “Com que frequência?”, “Quanto paga?”, “O que te incomoda?”, “O que te faria trocar de fornecedor?”.
Também vale a tática do “cliente oculto” – usada de maneira ética, dá para avaliar atendimento, preços, prazo e experiência de compra.
O teste definitivo é colocar a oferta diante do consumidor. Neste momento, não precisa montar a operação completa. Um doce pode ser vendido por encomenda. Um serviço pode começar com alguns clientes. Uma página nas redes sociais pode testar anúncios e captar interessados. Uma pré-venda pode mostrar se alguém está disposto a colocar dinheiro na ideia.
“O teste mais interessante é aquele em que há algum compromisso real do consumidor, como um pedido, orçamento, agendamento ou pré-venda. Existe uma diferença enorme entre ‘Gostei da sua ideia’ e ‘Quero comprar’”, diz o professor da FIA.
Encontrar consumidores não basta. Eles precisam ser suficientes para pagar a operação. O empreendedor deve calcular o ponto de equilíbrio: quanto precisa faturar para cobrir os custos. Se a empresa tem R$ 10 mil de custos fixos e ganha R$ 50 de margem de contribuição por venda, precisa de 200 vendas por mês para atingir o equilíbrio.
No entanto, não existe um número mágico de consumidores que torne um mercado promissor. O resultado depende do tíquete médio, da frequência de compra, dos custos e do tamanho do público. É esse cruzamento que transforma uma boa ideia em uma hipótese de negócio. E permite descobrir, antes de assumir despesas, se existe gente suficiente do outro lado disposto a comprar.
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| Atualizado em: 07/10/2026 10:26 | ||