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Existe uma palavra da Grécia Antiga que o vocabulário corporativo ainda utiliza muito pouco, mas que talvez explique um dos maiores desafios das organizações contemporâneas: Ekecheiria.
Era o nome dado ao período dos Jogos Olímpicos em que cidades rivais suspendiam seus conflitos para compartilhar algo maior do que suas diferenças. Durante aquele tempo, atletas, líderes e cidadãos reconheciam que pertenciam a uma comunidade muito maior do que seus próprios interesses.
Mais de dois mil anos depois, a lógica permanece exatamente a mesma.
A Copa do Mundo continua reunindo milhões de pessoas em torno de um propósito comum. Durante alguns minutos, desaparecem cargos, classes sociais, nacionalidades e diferenças. Permanecem apenas pessoas vibrando pelo mesmo escudo — no nosso caso, o Brasil.
Talvez seja justamente isso que as empresas mais precisam aprender.
Vivemos uma era marcada pela inteligência artificial, pelos dispositivos móveis, pelas redes sociais, pela velocidade das transformações, pelos modelos híbridos de trabalho e pela necessidade permanente de adaptação. Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão desafiados a construir conexões humanas genuínas.
Nesse contexto, pertencimento, colaboração e trabalho em time deixaram de ser apenas temas de clima organizacional. Tornaram-se vantagem competitiva.
A ciência reforça essa visão. A McKinsey identificou que 89% dos profissionais consideram a segurança psicológica essencial para o desempenho no trabalho, enquanto estudos publicados na literatura científica demonstram que equipes com elevados níveis de segurança psicológica apresentam maior aprendizagem, inovação, colaboração e desempenho coletivo.
Essa discussão torna-se ainda mais relevante diante da evolução da NR-1, que amplia a responsabilidade das organizações sobre os riscos psicossociais. A mensagem é clara: cuidar da saúde mental não significa apenas oferecer programas de apoio. Significa construir ambientes onde as pessoas possam confiar, aprender, colaborar e performar de forma sustentável — e juntas.
É exatamente nesse ponto que o esporte oferece uma das maiores lições para a liderança.
Quando assistimos a uma final de Copa do Mundo, enxergamos apenas noventa minutos.
Mas a verdadeira competição começou muitos anos antes.
Nenhum atleta chega ao campeonato apenas porque possui talento.
Ele treina diariamente, repete fundamentos milhares de vezes, desenvolve disciplina, aprende a controlar suas emoções, fortalece sua capacidade física e mental, constrói confiança em seus companheiros, aprende a tomar decisões sob pressão e treina para momentos que talvez nunca aconteçam.
Porque, lá no fundo, todos sabem que, quando a oportunidade surgir, não haverá tempo para improvisar. São convocados e escalados os melhores em seus fundamentos.
Nas organizações, acontece exatamente o mesmo.
O lançamento de um novo produto, uma negociação complexa, uma transformação organizacional, uma inovação tecnológica, uma grande decisão estratégica ou a entrega dos resultados no fim do ano fiscal representam a nossa final de campeonato.
Mas nenhuma empresa vence apenas porque chegou o grande dia.
A vitória é construída durante o treinamento diário.
É nas conversas difíceis, nos feedbacks, nos programas de desenvolvimento, na preparação das lideranças e na aprendizagem contínua. Está também na coragem de experimentar e na capacidade de aprender com os erros antes que eles se tornem crises.
Grandes equipes não treinam apenas competências técnicas.
Treinam comunicação, colaboração e confiança. Treinam também tomada de decisão, resiliência e cultura.
Essa talvez seja a maior semelhança entre disputar uma Copa do Mundo e trabalhar em uma organização de alta performance. Nos dois ambientes, o resultado aparece apenas para quem observa o jogo. O treinamento permanece invisível.
Existe outra lição extraordinária que o esporte oferece às empresas.
Nenhum técnico escolhe simplesmente os onze jogadores mais talentosos. Ele escolhe o time que melhor joga junto. Porque talento ganha partidas, mas confiança ganha campeonatos.
Nas empresas, acontece exatamente o mesmo. Não basta contratar excelentes profissionais. É preciso criar um ambiente onde eles possam discordar com respeito, pedir ajuda sem medo, aprender rapidamente, assumir riscos responsáveis e colaborar genuinamente.
É justamente essa confiança que sustenta a segurança psicológica — hoje reconhecida como um dos maiores preditores de inovação, aprendizagem e desempenho coletivo.
Na Unilever, chamamos essa ambição de “Play to Win”, ou seja, jogar para ganhar.
Mas jogar para ganhar nunca significou jogar sozinho. Nenhum atleta conquista uma Copa sem confiar no companheiro que corre ao seu lado. Nenhuma seleção vence porque possui apenas um craque.
O goleiro importa. Os zagueiros importam. Quem entra aos 40 minutos importa. O preparador físico importa. O fisioterapeuta importa. O analista de desempenho importa. Quem fica no banco também importa.
Porque todos fazem parte da vitória.
As organizações funcionam exatamente da mesma forma.
O operário da fábrica, o abastecedor da gôndola, a equipe comercial, o RH, o financeiro, a logística e a tecnologia. Cada área executa movimentos diferentes, mas todas perseguem o mesmo objetivo.
Quando cada pessoa compreende claramente seu papel e acredita que faz parte de algo maior, a colaboração deixa de ser um discurso e passa a ser uma vantagem competitiva.
É por isso que momentos coletivos possuem um valor muito maior do que normalmente imaginamos.
Assistir juntos a um jogo da Copa do Mundo não melhora, por si só, a saúde mental das equipes. Mas gera espaço para conversas, constrói memórias, aproxima pessoas, humaniza relações e fortalece vínculos.
E vínculos fortes são fatores reconhecidamente protetivos contra diversos riscos psicossociais, além de favorecerem o trabalho em equipe.
Celebrar também faz parte da alta performance.
Os maiores atletas do mundo compreendem que desempenho sustentável depende do equilíbrio entre intensidade e recuperação. Treinam no limite e competem no limite. Mas também descansam, recuperam-se, celebram pequenas conquistas e reforçam continuamente o espírito coletivo.
As organizações começam a descobrir essa mesma verdade.
Alta performance não significa manter pessoas permanentemente no limite. Significa construir ambientes capazes de sustentar excelentes resultados durante muitos anos.
Ao longo de mais de vinte anos trabalhando em organizações globais, aprendi que cultura raramente nasce em apresentações de PowerPoint.
Ela nasce nas experiências compartilhadas, nas histórias que as pessoas contam, nos cafés, nas celebrações, nos desafios superados juntos e nos momentos em que alguém percebe que não está sozinho.
Talvez esse seja o maior legado que a Copa do Mundo possa deixar para os líderes.
Resultados extraordinários nunca são fruto apenas do talento individual. São consequência de preparação, disciplina, treinamento, confiança, propósito, colaboração e pertencimento.
Porque pessoas vencem jogos.
Mas apenas times verdadeiramente conectados constroem campeões.
No fim, toda liderança deveria responder apenas a uma pergunta:
Quando o próximo grande desafio chegar, nossa equipe estará apenas reunida… ou verdadeiramente preparada para entrar em campo, confiar uns nos outros e jogar para ganhar?
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