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Alta mortalidade de empresas no Brasil vai além instabilidade econômica

Turbulência econômica, carga tributária e crédito restrito não são os únicos vilões da mortalidade das empresas, que não se restringe ao Brasil

Seis entre 10 empresas encerram suas atividades antes de completar cinco anos. Os principais fatores que levam a esse alto índice de mortalidade incluem ausência de planejamento, gestão financeira deficiente e falta de análise de mercado, revela a pesquisa “Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo“, do IBGE.

Segundo Fábio Rossetto, cofundador e CGO da Rossetto & Lorenzi, consultoria especializada em criação de valor e resultado, a instabilidade econômica, a carga tributária e o crédito restrito são fatores que existem e pesam, mas raramente explicam o problema por inteiro. Em muitos casos, funcionam mais como justificativa do que como causa. “Muitas empresas recebem recomendações, mas não conseguem transformar isso em resultado capturado”, diz Rossetto.

Ele explica que frequentemente são organizações que fizeram tudo certo por anos, cresceram, ganharam escala, otimizaram processos, mas em algum momento pararam de questionar as premissas que as trouxeram até ali. “E foi exatamente neste momento, não no trimestre em que a receita caiu, que a competitividade começou a se deteriorar”.

Dados da Receita Federal indicam que o país tem 11,4 milhões de empresas ativas. Na base, 3,9 milhões de pessoas jurídicas receberam grau D, o nível mais baixo, com conformidade inferior a 70%. São empresas com débitos vencidos, declarações atrasadas, inconsistências entre o que declaram e o que escrituram. Na prática, companhias operando no limite, muitas delas sem saber ao certo onde o problema começa. O diagnóstico imediato quase sempre aponta para fora.

Um relatório recente da Confederação Nacional da Indústria mostrou que a produtividade industrial recuou 0,8% em 2024, em um contexto no qual o volume de horas trabalhadas cresceu 4,5%, enquanto a produção aumentou apenas 3,7%. Mais esforço, menos entrega. O sintoma é conhecido, a causa costuma demorar a ser reconhecida. Muitas empresas faturam, mas não geram resultado. Misturam contas pessoais com as corporativas, não acompanham margens com precisão e tomam decisões sem base consistente de dados. Faturamento, isoladamente, deixou de ser indicador de saúde.

Armadilha do crescimento

Matheus Lorenzi, cofundador e CEO da Rossetto & Lorenzi, observa o mesmo fenômeno pelo ângulo das finanças. “A empresa vende mais, mas financia o próprio crescimento e perde eficiência. A receita sobe, mas o ciclo de caixa estoura, e a empresa fica mais frágil”, explica.

Crescer puxa capital de giro, infla custo fixo antes que a produtividade acompanhe e corrói margem por meio de descontos e mix de produtos mal gerido. O resultado é uma armadilha que parece vitória enquanto acontece.

“Crescimento irregular é quando a empresa ganha receita e perde controle”, complementa o especialista. O que os dados globais confirmam é que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. Pesquisa da McKinsey com mais de 10 mil executivos em 15 países, publicada em 2026, revela que 72% dos líderes admitem que suas organizações não estão preparadas para as mudanças que já estão em curso.

Outro relatório, o Returns on Resilience and Adaptation, do Systemiq, desenvolvido com participação de mais de 120 organizações, demonstra que investimentos em adaptação geram crescimento, estabilidade e competitividade. Não é mecanismo de defesa, mas uma fonte de criação de valor econômico.

“Liderar um negócio exige ritmo, menos improviso, mais cadência e responsabilidade. É preciso clareza do que precisa ser feito, planejamento para organizar as metas, disciplina para manter a execução com constância e comunicação para as partes relacionadas”, completa Lorenzi.

Os 3,9 milhões de empresas classificadas como grau D na Receita Federal não chegaram lá de um dia para o outro. Os dados e os especialistas mostram que a perda de competitividade começa quando a empresa para de revisar as crenças que sustentaram seu sucesso.

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Atualizado em: 15/06/2026 17:09