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Crises e Raízes

*Prof. Dr. Antônio Lopes de SáO prestigioso jornal francês “Le Monde” recentemente, em sua secção de Economia, trouxe um sofisticado fluxograma explicativo sobre a crise financeira, procurando ser didático. Ocultou, todavia, partes importantes das raízes da especulação que movimentou o processo. Ou ainda, mostrou efeitos evidentes sem entrar em pormenores a respeito de algumas causas. Para um bom entendedor, entretanto, é possível perceber que os eventos se sustentaram de uma “engenharia especulativa” que sem dúvida resultou em prejuízo de muitos e lucros de alguns poucos. O gráfico dinâmico mostrou que para aplicar altas disponibilidades os Bancos começaram a realizar muitos empréstimos lastreados exclusivamente no valor do imóvel. Silenciou o fluxograma sobre a justificativa do programa econômico do governo Bush que “aparentemente” foi a de estimular o mercado imobiliário com o intuito de controlar os efeitos psíquicos relativos aos alegados ataques terroristas de 11 de Setembro, sem a cautela necessária de um controle sobre o movimento especulativo. O esquema instalou-se na base de juros baixos, altos riscos, ensejando créditos imobiliários dependentes de “valores de mercado” dos imóveis, inclusive amparados por direitos de revenda, projetando miragens de “resultados futuros” para as instituições de crédito. Fermentou a massa financeira uma frenética dança de “ativos” que se repassavam e se tornavam “ativos de ativos” (denominados derivativos), tudo amparado por uma vasta publicidade bem alimentada. Quando os Estados Unidos começou a elevar de novo os juros (e a instituição responsável é controlada pelos próprios Bancos), o problema se agravou (e isto o gráfico do “Le Monde” não destaca claramente); ônus mais altos, insolvências, ensejaram queda dos preços dos imóveis, enfraquecendo as “garantias” dos empréstimos e de seus pertinentes “derivativos” (contratos relativos a preços de bens do ativo, negociados em bases de expectativas de resultados futuros, a termo, de opções, ou seja, os referidos “ativos de ativos”). Como sobre mútuos imobiliários (ativos) outros se contrataram e transacionaram-se entre estabelecimentos (repito: fazendo ativo fundamentado no de outro ativo), iniciou-se todo um processo de créditos vazios (e isso o fluxograma também não detalha). O fato assemelhou-se ao velho truque das “correntes”, aplicado em incautos. O curso macabro financeiro dos “derivativos” (ativos virtuais), todavia, precisava fechar-se, exigindo, ao estourar a bolha, a interferência do Estado (no qual se buscou, sobre os ombros dos contribuintes, aliviarem os atos da marcha da especulação e omissão defluente de um processo financeiro macabro); tal o evento que hoje justifica o posicionamento de nações diversas, em estudos, pronunciamentos e reuniões de cúpulas. A atual crise, pois, teve raízes; a maturação da mesma se deu em vários anos, de forma cruel. Resumindo: abriram-se as portas do crédito, fragilizaram-se as garantias, manipularam-se juros, criaram-se situações patrimoniais fantasiosas baseadas em “miragens de lucros” e tudo se ocultou até a maturação, enquanto a especulação marcava o seu compasso. Completando o circuito, sob o manto da compulsoriedade, evoluído e concluído o processo, surgiu a frenética consagração de um denominado “Justo Valor”, através de normas contábeis com o rótulo de “internacionais” como um depurativo virtual. As ditas normas contábeis ditas internacionais passaram compulsoriamente a exigir a utilização do denominado “Justo Valor”, ou seja, a apelar para “a mesma ferramenta que alimentou a raiz da crise” – o “valor de mercado” ou da “suposta realização”... Reiniciou-se a dança dos números, perdas se transformaram em lucros, com a complacência dos controles governamentais e até atuação dos poderes públicos (como ocorreu com o Banco Central no Brasil, a instituição financeira Deutsche Bank etc. etc.). Não são, pois, necessários tantos neurônios, dos milhões que dispomos, para refletir sobre o que na Comunidade Européia se tem difundido em matéria de perguntas: 1 - onde estavam os auditores que não acusaram os riscos? 2 - Por que não se evidenciou a realidade? 3 - Por que não funcionaram as normas se já existiam? 4 - Que confiança merece tais normas e tais auditorias nelas inspiradas? Por que não ensejaram advertências necessárias? Quanto se investiu para mentir e quanto se investiu para encobrir mentiras? Fato evidente no demonstrativo do “Le Monde” é que uma crise de confiança aliou-se àquela financeira; isso bem autoriza, também, reflexão sobre as razões do abandono da realidade objetiva (requerida pela ciência) desprezada em muitos conceitos e textos nas ditas Normas Internacionais de Contabilidade, essas que se manifestaram incompetentes para conter o curso macabro do movimento especulativo financeiro. Isso tudo bem justifica refletir sobre o dito “Justo Valor” e que papel representa na crise que hoje tão ostensivamente se espelha em todo o mundo, tão como sobre as ditas Normas Internacionais de Contabilidade que o consagra.*Autor: Antônio Lopes de Sá www.lopesdesa.com.br Contato: lopessa.bhz@terra.com.brDoutor em Letras, honoris causa, pela Samuel Benjamin Thomas University, de Londres, Inglaterra, 1999 Doutor em Ciências Contábeis pela Faculdade Nacional de Ciências Econômicas da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, 1964. Administrador, Contador e Economista, Consultor, Professor, Cientista e Escritor. Vice Presidente da Academia Nacional de Economia, Prêmio Internacional de Literatura Cientifica, autor de 176 livros e mais de 13.000 artigos editados internacionalmente.

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